Mila fala sobre o sexismo na industria cinematográfica

Mila usou o site Aplus para postar um texto contando sua experiência na industria sexista de Hollywood. Confira o texto completo abaixo:


 

“Você nunca mais irá trabalhar nessa cidade”

Um clichê, mas foi exatamente o que um produtor ameaçou quando me neguei a posar semi nua na capa de uma revista para promover nosso filme. Eu não estava mais disposta a me submeter a um compromisso que eu tinha feito. “Eu nunca mais irei trabalhar nessa cidade?” Eu estava lívida, eu me senti como um objeto, e pela primeira vez na minha carreira eu disse não. E adivinhe? O mundo não acabou. O filme fez um monte de dinheiro e eu trabalhei novamente na cidade. E de novo. E de novo. O que esse produtor não percebeu, é que ele falou em voz alta o medo que toda mulher sente ao lidar com a diferença de gêneros no trabalho.

É o que somos condicionadas a acreditar – que se falarmos, nosso modo de viver será ameaçado; Que se nos erguemos isso levará à nossa morte. Nós não queremos ser chutadas da caixinha de areia por ser uma vadia. Por isso, comprometemos a nossa integridade pelo bem de manter o status e esperamos que a mudança esteja chegando.

Mas a mudança não está chegando tão rápido assim para ajudar meus amigos, meus pares ou ate mesmo meus filhos. De fato, um estudo recente feito pela American Association of Universtiy Women mostra que a diferença salarial está se fechando a uma taxa tão lenta que será 136 anos antes das mulheres serem pagas igualmente aos homens. 136 anos. E a diferença salarial é apenas uma quantificação clara da subvalorização das contribuições da mulher no ambiente de trabalho.

Ao longo da minha carreira, houve momentos onde eu fui insultada, deixada de lado, recebi menos, criativamente ignorada, e diminuída com base no meu sexo. E sempre, eu tentei dar as pessoas o beneficio da dúvida. Talvez eles saibam mais, talvez eles tenham mais experiência, talvez houvesse algo que eu estava perdendo. Eu aprendi que para ter sucesso como uma mulher nesta indústria eu teria que jogar pelas regras do clube dos meninos. Mas quanto mais velha eu fico e quanto mais eu trabalho nessa indústria, mais eu percebo que isso é bobagem. E pior, eu era cúmplice em permitir que isso acontecesse.

Então, eu comece o meu próprio clube. Eu formei uma companhia de produção com três mulheres surpreendentes. Temos lutado para desenvolver programas de televisão com qualidade com vozes e perspectivas únicas. Desde a nossa criação, tivemos a sorte de nos associarmos com incríveis produtores, homens e mulheres, que nos tratam como parceiros iguais. Recentemente, nós assinamos um contrato com um produtor masculino influente em um projeto que iluminaria uma questão social – ironicamente – inclusão e nossa experiência humana compartilhada.

No processo de lançamento desse projeto para uma empresa maior, os emails típicos foram mandados para os empresários. No email, este produtor escolheu enviar este:

“E Mila é uma super estrela. Uma das maiores atrizes de Hollywood e logo será esposa e mãe do bebê de Ashton Kutcher.”

Esse foi o email. Implicações factuais de lado, ele reduziu o meu valor para nada mais que a minha relação com um homem de sucesso e minha capacidade de ter filhos. Ignorou a minha (e do meu grupo) criatividade e contribuições logísticas.

Retiramos o nosso investimento no projeto.

Sim, esse foi apenas um comentário. Mas são esses comentários que mulheres lidam diariamente nos escritórios, nos telefonemas e emails – micro agressões que desvalorizam as contribuições e o valor das mulheres que trabalham duro.

Preconceito de gêneros é quase sempre sutil e imperceptível, e até mesmo totalmente indetectável para aqueles que compartilham o gênero. Ficou claro em emails posteriores desse produtor que ele estava totalmente inconsciente de que suas palavras eram tão terríveis. O que ele caracterizou como um comentário leve foi realmente um modo de desmerecer minhas contribuições e habilidade de ser levada a sério como uma parceira criativa.

Eu não tenho interesse em difamar esse homem. Preconceitos de gêneros cegos estão embutidos em cada faceta da nossa vida. Eles são reforçados por nossas instituições educacionais: os homens dominam as figuras que estudamos na história, as luminárias da matemática, da ciência e da tecnologia sobre quem aprendemos, e autores do discurso político que nos ensinam a reverenciar. Estamos inundados de histórias de superioridade masculina que nos cegam a arquitetura de nossos próprios relacionamentos. A própria palavra “cego” nos informa de tudo. Ninguém fica chateado quando um cego bate em uma parede, mas a parede não cessa de produzir força.

Eu estou cansada de me comprometer. E mais, estou cansada de estar comprometida. Então, a partir desse momento, quando eu for confrontada com um desses comentários, sutis ou abertos, vou abordá-los de frente. Vou parar no momento e fazer o meu melhor para educar. Não posso garantir que minhas objeções serão levadas a sério, mas pelo menos agora faço parte de criar um ambiente onde haja oportunidade de crescimento. E se meus comentários caírem em ouvidos surdos, eu irei embora.

Se isso está acontecendo comigo, está acontecendo mais agressivamente com mulheres de todos os lugares. Eu tenho sorte que alcancei um lugar onde eu possa parar de me comprometer e ficar no meu lugar sem medo de como eu irei colocar comida em minha mesa. Eu também tenho sorte que eu tenho a plataforma para falar sobre essa experiência na esperança de trazer uma voz mais a conversação de modo que as mulheres no local de trabalho possam se senti um pouco menos sozinhas e mais capazes de continuar.

Eu irei trabalhar novamente nessa cidade, mas eu não vou trabalhar com você.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *